Sant’Ana do Livramento se prepara para homenagear o seu filho mais ilustre, João Carlos Dávila Paixão Côrtes, que em 2027 completaria 100 anos, mais precisamente no dia 12 de julho. Para marcar a data, várias instituições, entidades e particulares estão idelizando uma série de atividades alusivas ao centenário, destacando a vida e obra de Paixão Côrtes.
Porém, antes desta importante data, a cidade idealizou homenageá-lo com a Semana Paixão Côrtes, uma série de atividades integradas ao Mês Farroupilha, que iniciou com a encenação do feito de 1947, quando ele e seus amigos retiraram uma centelha da Chama da Pátria para acender o candieiro e dar origem à Chama Crioula, dando início aos festejos farroupilhas que se espalharam por todo o Estado, Brasil e pelo mundo.
Como forma de homenagem, a reportagem do Expresso Fronteira entrevistou o filho de Paixão Côrtes, Carlos Paixão Côrtes, que contou um pouco sobre os ensinamentos deixados por seu pai, as raízes com Sant’Ana do Livramento e como a família vê as homenagens que serão realizadas no próximo ano. Confira a entrevista exclusiva e especial com a família de uma dos maiores nomes do tradicionalismo Rio-Grandense.

2007- Cerro Chato Fazenda Fernandes ft CPC Acervo JCPC
Como a família recebe a quantidade expressiva de homenagens que ele continua recebendo em todo o país mesmo após a sua partida? Como um reconhecimento ao seu trabalho em 70 anos de vida pública como folclorista, tradicionalista, artista, radialista e Engenheiro Agrônomo, entre outras atividades que exerceu ligadas a comunicação e ao ensino. Nas mais diferentes áreas que atuou sempre houve um reconhecimento ao seu pensamento e sua atuação junto a todos segmentos da sociedade. Hora esteve nos palcos apresentando a cultura gaúcha com sua música, dança e poesia, para logo depois estar nos distantes rincões pesquisando as manifestações de hábitos e religiosidade do povo gaúcho. Ele sempre se preocupou em ser reconhecido pelo seu trabalho. A família vê as homenagens como este reconhecimento.
Você já representou seu pai em diversas solenidades na cidade, como na Semana Histórico-Cultural Paixão Côrtes. Para você, qual é a diferença entre uma homenagem puramente institucional e o carinho que o povo de Livramento demonstra nas ruas? A homenagem das instituições governamentais representativas da população, nominando uma Semana Histórico-Cultural de Paixão Côrtes é um reconhecimento a quem levou Sant’Ana do Livramento, sua querência, a todos os lugares que esteve. Cabe as instituições governamentais levarem a cultura e o conhecimento a população. Esta Semana é uma oportunidade para as escolas e instituições culturais poderem trabalhar esses conteúdos. O carinho popular, meu pai, sempre pode sentir nas diversas vezes que esteve em Sant’Ana. O Santanense sempre demonstrou sua alegria de tê-lo como conterrâneo. Este sentimento foi especial na sua última estada no município quando da inauguração da estátua que sua figura saúda a chegada dos santanenses e dos visitantes a cidade.
Sant’Ana do Livramento, terra natal de seu pai, prestou no último 07 de setembro uma homenagem à ele, representando pelos tradicionalistas o ato de 1947. Ele também está sendo homenageado durante as celebrações do Mês Farroupilha, com uma semana de atividades que recebe o nome dele. Como a família vê esta forma de homenagem? C. Paixão Côrtes sempre destacou que a Chama Crioula é um símbolo que une as pessoas e que queima as diferenças. Cada vez que a Chama Crioula é acessa é revivido seu ato pioneiro de 1947, retomando os valores daqueles jovens dos primórdios do movimento tradicionalista. As atividades culturais são de suma importância, pois possibilitam o conhecimento da história e dos hábitos de nossos antepassados, possibilitando a identidade com este gaúcho, elemento que se formou da fusão de etnias no pampa.

2013- Livramento inauguração da estátua ft Carlos Paixão Côrtes Acervo JC Paixão Côrtes
Sant’Ana do Livramento está mobilizada para o “Mês do Paixão” em julho de 2027. Como a família tem acompanhado o planejamento dessas comemorações lideradas por várias entidades e pela comunidade santanense? A Família têm tomado ciência da mobilização pelas entidades e pela comunidade de Sant’Ana para que o “Mês do Paixão” seja um período de homenagem a J. C. Paixão Côrtes, e é muito grata aos anônimos que têm empreendidos esforços neste sentido. Por situações diversas, não conseguimos nos deslocar neste momento para apoio pessoal aos atos de lançamento, mas acreditamos nas ideias até agora apresentadas. Destaco o “Memorial Paixão Côrtes”, projeto do CTG Presilha do Pago, liderados por Rui Rodrigues e Andrea Rodrigues, que foi apresentado e aprovado pelo próprio Paixão Côrtes, a mais de uma década, e, que com o apoio cultural poderá ser concretizado.
Dentre as atividades previstas, como cavalgadas, missas crioulas e saraus, qual delas você acredita que melhor traduziria o que o seu pai mais amava na região do Cerro Chato e da Fronteira? Entendemos que todas as diversas homenagens terão os seus momentos culturais e educacionais para que a comunidade e os visitantes possam ser contagiados pelos valores de meu pai, de pertencimento a esta terra, de orgulho pela sua querência, e de que os hábitos e os valores aparentemente mais simples carregam a grandiosidade da nossa identidade gaúcha. Creio que as atividades educacionais com crianças e jovens teriam um olhar especial dele, pois acreditava da importância das novas gerações para que a tradição gaúcha se tornasse perene.
Há algum acervo, objeto pessoal inédito ou memória íntima que a família pretenda compartilhar com o público de Livramento exclusivamente durante as homenagens do centenário? A anos estamos organizando o Acervo Documental de J. C. Paixão Côrtes. Ocorrendo o planejado, buscaremos no Acervo elementos e curiosidades para que possam trazer a conhecimento do público detalhes inéditos que compuseram estas décadas seu trabalho.
Que lição principal você aprendeu com ele sobre a importância de preservar os símbolos da nossa identidade, e que você faz questão de passar adiante para as próximas gerações? A frase apreendida com ele é que os símbolos nos representam e são duradouros. São eles que, onde estivermos no nosso mundo, retratam a nossa identidade gaúcha. Sejam os símbolos físicos como a Chama Crioula ou a estátua “O Laçador” de Caringi, sejam os símbolos dos hábitos como o sapatear de uma chula ou nosso falar regional, todos exprimem a nossa identidade gaúcha. Cada um vai carregar consigo, o que melhor lhe representa.

2007- Sant’Ana do Livramento casa nascimento Hernandez placas registro ft CPC Acrvo JCPC
Paixão Côrtes dizia que “Tradição não é voltar ao passado, mas cultuar o passado”. Se ele estivesse aqui hoje vendo as novas gerações prestando essas homenagens, o que o senhor acha que ele diria para os jovens tradicionalistas? Sempre é difícil querer falar em seu nome, sendo ele de uma geração idealista do pós-guerra que vivenciou muitas mudanças da nossa civilização, sempre acompanhando sua evolução. Lembro que ele também expressou que “ a tradição saiu do galpão e tornou-se universal”. Entendo que nestas expressões estão as mensagens aos jovens que vivam a tradição como um culto aos símbolos do nosso passado que nos identificam, sem uma visão conservadora, mas tenham atenção ao movimento de evolução civilizatória e de modernidade com as vivências do seu tempo, mantendo as raízes na sua cultura formadora.

2007- Cerro Chato encontro familiar núcleo Fernandes ft Carlos PC Acervo JCPC













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