Após 20 anos de luta do movimento negro no Rio Grande do Sul, o Cerro de Porongos, localizado em Pinheiro Machado, está prestes a ser tombado como patrimônio histórico nacional. Este será o primeiro tombamento a reconhecer a participação de pessoas negras na Revolução Farroupilha (1835-1845). O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) está na fase final do processo, que deve ser concluído ainda em 2026.
O tombamento é visto como uma vitória significativa para o movimento negro, pois reescreve a história oficial ao incluir narrativas de populações historicamente esquecidas. A arqueóloga do Iphan, Sara Munaretto, destaca que esse reconhecimento amplia a ideia de identidade do Rio Grande do Sul, enquanto Luiz Mendes, representante do movimento negro, compara sua importância à luta pelo Quilombo dos Palmares.
O cerro foi o local do massacre dos Lanceiros Negros, soldados escravizados que lutaram sob a promessa de liberdade e foram dizimados em um ataque das tropas imperiais em 1844.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, durante as negociações do tratado de paz que colocariam fim à Revolução Farroupilha, um grupo de dezenas de soldados negros, com habilidade incomum no manejo de lanças a cavalo — os Lanceiros Negros — foi trucidado por tropas imperiais no Cerro de Porongos. Eles haviam sido desarmados por seu comandante, o general farrapo David Canabarro, sob justificativa de temor de uma rebelião.
Um documento histórico encontrado anos depois sugere que o massacre havia sido combinado entre os comandantes farroupilhas e o então Barão de Caxias (depois Duque), patrono do exército brasileiro e então comandante das tropas no sul. Os soldados negros lutavam nas fileiras republicanas sob a promessa de liberdade e seriam um entrave à paz com o império, que ainda era escravocrata — e assim permaneceu pelos 40 anos seguintes.













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