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Escritora Tanise Carrali homenageia professora Conceição Aquino Machado em evento na Academia Santanense de Letras

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A Academia Santanense de Letras promoveu nesta quarta-feira, dia 10 de dezembro, um evento para marcar o encerramento das atividades em 2025, o qual contou com a presença de vários confrades. Na ocasião, a escritora Tanise Carrali prestou uma homenagem à saudosa professora Conceição Aquino Machado, representada por seus familiares que acompanharam a singela homenagem realizada. A seguir, na íntegra, é possível conferir o texto escrito para a ocasião.

À Conceição Aquino Machado

*Tanise Carrali
Entre outubro e dezembro de 2025.

Hoje nos reunimos para celebrar a presença — ainda que agora entre
parênteses — de Conceição Aquino Machado, professora que fez da língua
portuguesa não apenas profissão, mas território, trincheira e morada. Conceição não habitava a língua: ela conjugava a vida dentro dela.
Nascida em Santana do Livramento, no dia 3 de janeiro de 1940, atravessou
décadas ensinando em instituições que ainda guardam ecos de sua firmeza: EEEF Celina Vares Albornoz, Instituto Estadual de Educação Prof.Liberato Salzano Vieira da Cunha, Instituto Livramento e Faculdade Urcamp.
Em cada sala, era como se ela revisasse o mundo: não deixava vírgulas
soltas, nem concordâncias frouxas, nem alunos em parágrafos confusos. Conceição tinha o dom raro de colocar ponto-final sem pedir desculpas — e ponto-e-vírgula quando queria lembrar que sempre há algo a continuar.
Na escrita, preferia os textos dissertativos e reflexivos, mas gostava de
temperá-los com aquele lirismo enxuto, como um verso que recusa adjetivos
gordurosos. Ela lapidava ideias como quem revisa um texto pela quinta vez: com firmeza, precisão e zero paciência para metáforas frouxas.
Foi também presença na Academia Santanense de Letras, onde via a
oportunidade — sem rodeios e sem redundâncias — de alinhar ideias, valores e experiências. Para ela, escrever era passar a limpo a própria consciência. Defender a língua era tão essencial quanto defender o próprio sobrenome.
Entre aqueles que a tiveram como professora, ecoa uma lembrança
recorrente: foco, disciplina e perseverança — três substantivos concretos, sem
artigos indefinidos, porque na vida de Conceição nada era “um” ou “algum”: era o certo, o preciso, o necessário.
Professora de Letras, Conceição entendia que a vida nem sempre segue a
norma padrão. Às vezes é uma mistura de crase duvidosa com oração subordinada que ninguém pediu. Mas ela encarava tudo com a precisão de quem sabe que até o caos tem sintaxe — e que a vírgula salva vidas (e reputações acadêmicas).
E, hoje, uma memória chega pelas vozes das ex-alunas, Silvia Moraes, que a
teve na Urcamp: “A professora Conceição foi a minha inspiração. Ela sabia muito e era muito exigente. Eu sei muita gramática graças a ela. Aprendemos a estudar para as aulas dela. ‘Vocês são professores de português. Vocês vão defender a língua materna. Precisam falar e escrever corretamente.’ Eu aprendi de verdade com ela. Era firme, dura — mas a gente queria estar perto.” E Vanessa Vargas, que nunca esqueceu o “sinal sonoro” da professora:
“Três batidinhas na classe e o pedido de silêncio — impossível
esquecer. Escrevendo no quadro, de costas, ela reconhecia a nossa voz.
Sabia o nome de todas de cor. Anos depois, encontrei ela na rua e pensei que
não seria lembrada. Engano meu. ‘Boa tarde, Vanessa’, ela disse — como
quem prova que professor de verdade não apaga aluno da memória.”
As três batidinhas na classe? Aquilo não era só um pedido de silêncio:
era uma pontuação sonora. Como se ela dissesse, sem dizer: “Aqui acaba o
parágrafo do barulho e começa o capítulo da atenção.” E funcionava.
Funcionava tanto que até hoje ecoa na memória.
Mas talvez o símbolo mais forte venha da família.
Como lembra o filho, Conceição se definia com a simplicidade de quem não
joga conversa fora: “Sou mãe, pai e ausente.” Uma oração coordenada adversativa sem o “mas” — porque ela não precisava explicar: bastava afirmar.
E antes de uma viagem importante, deixou aos familiares uma despedida de
pontuação final, porém cheia de entrelinhas: “Se eu não voltar, até a próxima…”
Reticências usadas com sabedoria — não para sugerir insegurança, mas para
afirmar consciência.
Hoje, ao ocupar a cadeira que foi sua, não faço isso com melancolia
açucarada — porque ela certamente me corrigiria: “Tanise, sentimentalismo demais vira advérbio inútil.”
Celebramos, isto sim, a continuidade, essa espécie de conjugação no futuro
do presente. Porque Conceição não pediu flores — pediu coerência, clareza,
coragem e sempre, boa gramática.
Conceição não precisava de simbolismos grandes; ela mesma era o símbolo.
Da honestidade sem firulas, da gramática que serve para viver melhor e da certeza de que memórias importantes não se apagam — no máximo, ganham uma revisão de estilo.
E assim o fazemos: Sem sentimentalismos exagerados, sem erros de
concordância, sem “porém” deslocado, sem crase onde não cabe e com a certeza de que, se a vida tem muitas vírgulas, o legado de Conceição é — e sempre será — ponto firme e regra bem aplicada.

Familia da prof. Conceição Aquino, filho e sobrinhas.

 

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